Fernando Simonetti

Você costuma dar preferência ao que é “natural” e pensa que, por isso, está isento de efeitos colaterais? Ou é daquelas pessoas que recorre às manipulações acreditando que, assim, está evitando os industrializados?

Vivemos uma era de forte apelo ao natural. No entanto, é essencial compreender que “natural” não é sinônimo de “inofensivo”. Tudo o que aplicamos ou ingerimos pode provocar efeitos colaterais — independentemente de sua origem.

Diariamente escuto pacientes dizendo que evitam ao máximo medicamentos ou produtos de farmácia, buscando sempre “algo da natureza” como uma forma de se proteger. Mas a verdade, ainda que frustrante para alguns, é que você pode estar apenas trocando o tipo de efeito colateral — sem realmente reduzi-lo.

O que é, afinal, um produto natural?

Um produto só é verdadeiramente natural quando usado in natura — sem processamento ou alteração. Se a matéria-prima foi extraída, isolada, estabilizada, embalada e tem validade estendida, então, por definição, já é um produto industrializado.

E o que realmente determina a ocorrência de efeitos colaterais não é apenas a origem, mas sim como ele interage com o seu corpo. Fatores como pH, concentração, modo de uso, forma de absorção e compatibilidade individual influenciam diretamente na resposta — seja ela positiva ou negativa.

Dois exemplos para quebrar paradigmas:

  • Canabidiol: Legalizado no Brasil em 2020, é um extrato isolado da planta Cannabis sativa. Ele é útil em algumas condições neurológicas, mas jamais se recomenda o uso da planta fumada como terapia. Falar em prescrição de “maconha” é uma confusão comum — e perigosa.
  • Captopril: Amplamente utilizado no tratamento da hipertensão nas décadas de 80 e 90, esse medicamento tem origem no veneno da jararaca. Nem por isso se cogitou que alguém deveria ser picado por uma cobra para controlar a pressão arterial.

Esses exemplos mostram que o importante não é ser “natural” ou “sintético” — é ser adequado, seguro e orientado.

Casos práticos do dia a dia

🌿 Óleos essenciais

Os óleos essenciais, como lavanda e hortelã-pimenta, possuem propriedades terapêuticas reconhecidas. A lavanda, por exemplo, contém compostos que promovem relaxamento, enquanto a hortelã-pimenta pode aumentar o estado de alerta. Porém, seu uso inadequado pode causar irritações ou reações adversas, especialmente em peles sensíveis.

🍌 Produtos naturais e o pH da pele

A aplicação de substâncias como casca de banana ou babosa diretamente na pele pode alterar seu pH natural, prejudicando a barreira cutânea e favorecendo infecções. É fundamental entender que, mesmo sendo naturais, esses produtos podem causar efeitos indesejados se usados incorretamente.

☀️ Exposição solar

Sol é remédio — e também veneno. Sem ele, falta vitamina D e até dopamina. Em excesso, traz manchas, inflamações e mutações celulares. O segredo está na dosagem e no bom senso. Protetor solar é importante, mas também precisa ser bem indicado.

💉 Reposição hormonal

A terapia com testosterona tem indicação legítima. Mas isso não significa usar doses três vezes maiores que o valor fisiológico e chamar isso de “reposição”. Quando feita sem critério, é simplesmente uso de anabolizante.

💧 Até a água tem efeito colateral

Todos concordamos que beber água é fundamental para a saúde. Mas até ela, quando usada de forma inadequada, pode causar problemas. Existe uma recomendação diária que varia conforme o peso, a composição corporal e o estado clínico de cada pessoa.

Ingerir água demais pode sobrecarregar os rins, diluir em excesso os eletrólitos no sangue e até causar intoxicação por água — sim, isso existe! Por outro lado, beber de menos afeta diretamente a função celular, prejudica a digestão, o humor e até o aspecto da pele.

A lição aqui é simples e profunda: não é só o “quê”, mas o “quanto”, “como” e “pra quem” que faz a diferença. E isso vale para absolutamente tudo — da água ao hormônio, do chá ao medicamento.

A busca por saúde precisa vir acompanhada de informação e responsabilidade. Natural não é inofensivo. Sintético não é vilão. Toda escolha gera um efeito — e todo efeito tem um preço.

O ideal é que você conte com um profissional que te acompanhe, oriente e compreenda sua individualidade. Alguém que veja você por inteiro — corpo, mente, emoções, estilo de vida, espiritualidade. Porque no fim das contas, uma coisa é certa:

Tudo tem o seu preço.

Dr. Fernando Simonetti
CRM-SC 21.394
@drfernandosimonetti